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A vida é rara

  • Foto do escritor: Mar
    Mar
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si, é sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti. Tá, brincadeira, não vamos para esse lado.... Enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora, vou na valsa. A vida é tão rara... Também não vou para esse lado...



Hoje eu estava pensando em uma deliciosa broa de milho com gotas de chocolate que eu como todas as vezes que vou viajar de ônibus para visitar meus pais na minha cidade de origem, pensei nisso porque meu querido e amado pai pagou a minha passagem e me deu um dinheirinho a mais para comprar essa bendita broa que já desde o começo virou um ritual de passagem.

Esse ritual começou quando eu não tinha dinheiro suficiente para comprar um salgado e então vi uma bolota gigante de milho e chocolate, com o preço exato do valor que eu tinha disponível para gastar. Perfeito. Comprei. E a partir daí virou praxe.

Mas como todo ritual e regra, nem sempre somos os mesmos e alguns dias a rotina é feita justamente para ser quebrada, por exemplo, nessa última viagem eu não comprei a broa, talvez porque na viagem anterior eu tinha comprado 2 broas e descoberto que no mercado perto de casa eles também vendem broa (ainda que não seja igual à broa da estrada). Parecia então que o ritual da broa tinha simplesmente acabado. Exceto que tudo mudou com o dinheiro que ganhei para comprar a broa nessa próxima ida à cidade de meus pais.

Outra coisa curiosa sobre broas de milho com gotas de chocolate é que eu ODEIO erva doce e essa broa em específico tem erva doce, mas também tem tanta gota de chocolate que a erva doce passa até meio despercebida, o que de certa maneira é poético, sentir as vezes um pedacinho do gosto da imperfeição, só para confirmar que realmente é perfeito.

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Teve um hiato entre o que escrevi anteriormente e o que estou escrevendo agora, mas a ideia principal não era a broa, então não tem problema. Vou contar o que aconteceu e continuar a ideia principal do texto explorando o porquê a vida é tão rara e porque isso é lindo e melancólico e dolorido e fofo e lindo e reconfortante e tudo isso junto ao mesmo tempo.

O que aconteceu foi que eu comprei duas broas nessa viagem, e comi com meu pai e minha prima. Também valeu a pena dividir. E pensando nisso agora, muitas vezes, ainda que o ritual seja gostoso sozinho, compartilhar experiências com outras pessoas amadas é muito mais legal (e doce) do que a própria coisa em si, nesse caso a broa.

___ Mas o que eu quero dizer de fato com essa questão da broa? Muito simples: A vida é rara e as experiências são únicas, ainda que elas se "repitam".

Esses tempos atrás eu vi que a História não repete, mas rima. E isso foi muito interessante, porque realmente nada acontece exatamente da mesma forma, o que evidencia ainda mais como a vida é rara. Se eu viajar para casa de meus pais, umas quatro vezes no ano, então com certeza só comerei broa 4x no ano. E se eu viver mais uns 60 anos, comeria mais umas 240 broas, o que parece muito mais do realmente é, porque primeiro, eu não vou mais viajar e comprar broa todas as vezes que eu viajar porque em algum momento vou me mudar e o trajeto das broas vai mudar também. E segundo, 240 broas são poucas, se comparado à toda a vida e mais ainda, a toda a eternidade.

Tá, posso estar exagerando nessa questão das broas especificamente, mas vamos extrapolar essa ideia para coisas um pouco mais profundas. Se eu vejo meus pais raramente, ou se vejo meus amigos algumas vezes por ano, ou se vejo minha gata, algumas vezes por ano. Então, de alguma forma a minha experiência de vida com essas pessoas também é rara, o que me leva a refletir sobre como as vezes tomamos as coisas como eternas sendo que elas são muito raras e únicas.

As vezes eu vivo um momento já com saudades de quando eu lembrar dele, e daí quero viver o máximo possível daquele momento. As vezes eu lembro de coisas muito antigas com uma tristeza que não é exatamente de voltar para aquele momento mas uma tristeza de agradecimento pelo momento que passou.

Essa ideia de que a vida é rara não é nova e muito menos original, é uma ideia que perpassa muitas histórias, filosofias, lições de moral e serve de inspiração para muitos poemas ou noites em choro e desespero também. Mas, ao mesmo tempo que não é uma ideia nova, é uma ideia pouco colocada em prática de verdade, agir como se os momentos fossem irrepetíveis traz algumas consequências em como nos relacionamos com a própria vida. Algumas consequências podem ser positivas, mas também tem um lado ruim se isso se transforma em um apego com as experiências ou se torna uma forma de perfeccionismo, colocando o processo de estruturação da vida como se fosse a vida por si só.

Vamos explorar um pouco o lado ruim e depois voltamos ao lado bom para finalizar.

Também deixo aqui escrito que quero fazer um post sobre o "Processo de Estruturação da Vida como se fosse a Vida por si só". Que vai falar um pouco sobre produtividade e ócio. Mas isso fica para outra hora.

Continuando....

Uma consequência negativa, além dessa do processo de estruturação (que vou explorar profundamente em outro post) é o perfeccionismo, que basicamente nos obriga a não aproveitar as experiências (e as pessoas) como elas são porque poderiam ser de outra forma ainda mais perfeitas em alguma concepção.

Além disso, outro ponto negativo é o apego com as experiências, quando a nostalgia te tira de viver o presente. Eu acredito que a nostalgia é um momento maravilhoso para relembrar do passado e para repensar algumas coisas ou somente dar risada dos bons momentos e chorar os ruins, mas quando reviver as experiências na memória se torna sua maior fonte de emoções, então tem algo errado (não errado moralmente, necessariamente, mas errado no sentido de esvaziamento de possibilidades) com a forma como você vive, justamente porque ao ficar ruminando o passado você esquece que também há coisas raras acontecendo AGORA e portanto literalmente usa o tempo que poderia VIVER para REVIVER os momentos. É uma escolha, mas de certo não a melhor delas, para mim.

O apego também se apresenta nas expectativas do futuro, em que ao verificar a raridade da vida, o medo da morte se torna um caminho provável para a catastrofização após a percepção de que as coisas que vivemos são irrepetíveis e acontecem. Posso pensar que um dia vou morrer e isso me trazer expansão, mas isso também pode me trazer medo, geralmente essas coisas acontecem todas ao mesmo tempo e são relacionadas todas em conjunto uma com a outra. Não tenho uma resposta exatamente sobre esse medo, já que ele é justo, mas a negatividade dele é a mesma do que a anterior, a possibilidade de causar uma limitação em viver a vida. Memento Mori é uma frase em latim que significa lembre-se da morte, mas a função dessa frase é justamente seu oposto complementar: Memento Vivere, ou seja, lembre-se de viver, e em última instância. Lembre-se da morte e então lembre-se de viver. Quero fazer um post explorando essa ideia também.

Logo, essa visão de que a vida é rara, pode trazer um preciosismo que nos impede ironicamente e paradoxalmente de viver a vida rara. E que quando tudo é especial, pode acontecer um achatamento de experiências, onde colocamos tudo em um mesmo balaio e que todas as coisas são iguais, quando sabemos que comer uma broa é uma coisa, mas comer uma broa com quem você gosta, após 5 horas de viagem é muito mais gostoso. Por isso que eu odeio essa abstração que é a redução do ser humano em apenas uma lente (a neurobiológica, por exemplo, de utilizar neurotransmissores para explicar o ser humano).

Por fim, podemos falar sobre o outro lado dessa ideia da vida ser rara, que é totalmente voltada à apreciação da vida e como eu sempre digo de um jeito ou de outro, um dos meus lemas, é que a vida extraordinária é na verdade uma vida ordinária com o extra que colocamos. Ver o extra no ordinário.

Então ao perceber que a vida é rara, temos a oportunidade de ajustar um pouco nossa velocidade para observá-la e vivê-la com mais tranquilidade. Lembro de um poema que fiz uma vez, que eu falava sobre correr e velocidade, e esse poema faz muito sentido, (se eu achar um dia, eu posto), porque explorava justamente essa parte de observar a vida. Hoje eu diria contemplar. A vida rara merece contemplação, ao mesmo tempo que também merece loucura e desatino. É impossível desenvolver mecanismos objetivos para verificar o que é uma vida equilibrada, sem cair em arbitrariedade e moral, mas é importante refletir, como uma autorreflexão mesmo, se a vida em que estamos vivendo hoje é uma vida que está alinhada com esse valor da raridade da vida ou se estamos jogando fora nossos dias com atividades vazias que não gostamos de verdade. Não coloco um valor em cada tipo de atividade, como fazer exercícios é melhor do que comer um hamburguer sem contexto nenhum porque a vida é mais complexa do que isso e precisa de muito mais nuances para explorar, mas o que fica é o equilíbrio até no desequilíbrio.

 
 
 

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