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Me colocando no meu lugar

  • Foto do escritor: Mar
    Mar
  • há 3 minutos
  • 8 min de leitura

Eu sempre estou certa. Quer dizer, 97% das vezes. Mas algumas vezes a vida vem e me coloca no meu lugar, me mostrando que eu não estou certa sempre e que 97% das vezes é apenas uma brincadeirinha entre amigos para rirmos.

Vou listar alguns dos momentos em que eu tive um clique de consciência e dei dois passinhos para trás na minha pretensão de achar que eu estava sempre certa. (Vale dizer que eu realmente sou muito boa e que estou certa em muitas das vezes em que afirmo estar, justamente porque eu levo em consideração muitas coisas antes de tomar uma conclusão).

Mas dessa vez, cito coisas que pouco tem a ver comigo mesma, mas com a ideia de escutar os outros.

Vou contar alguns exemplos e depois explorar um pouco a importância de entender que "colocar-se no lugar do outro" nem sempre é uma boa ideia, já que você nunca vai ser o outro e também que se colocar em seu lugar é se colocar num lugar de aprendizado perante a vida.

O primeiro exemplo inclui ovos cozidos, (e inclusive lembrei dessa história porque estou fazendo ovos cozidos) e a minha sobrinha, que na época devia ter uns 4-5 anos. Fiz 2 ovos cozidos para mim, 2 para ela e 3 para meu pai, e na hora de descascar os ovos, ela me pediu para descascar também. Eu em toda minha pompa disse que ela podia só olhar, para não estragar os ovos. Então ela pegou uma cadeira, arrastou até o meu lado e ficou olhando eu descascar os ovos que eram para mim. E eu fiz um trabalho horroroso descascando o ovo e explicando para ela a "forma correta" de descascar. Depois de dois ovos descascados e horrorosos, pensei que era uma pedância desnecessária não deixar ela fazer uma atividade que não traria nenhum risco para ela, então perguntei se ela tinha achado legal ver descascar os ovos e se ela queria descascar o dela, já que se ela destruísse o ovo ou algo assim, seria o dela que estaria em risco. Ela disse que era algo MUITO legal (tadinha!) e que queria MUITO (tadinha de novo!). Deixei. E ela, ajudada pelos dedinhos minúsculos, paciência invejável e amor pelo trivial, descascou o ovo, (sob minha supervisão) de maneira quase profissional, não havia um machucadinho no ovo, estava perfeito. Aí que eu percebi meu erro em subestimá-la. Não era porque ela era uma criança que não conseguiria. Fim da história: ela gostou tanto de descascar ovo que descascou os delas e os do meu pai com uma alegria invejável que só aparece em quem descasca ovos pela primeira vez. Dos 7 ovos descascados aquele dia, 5 ficaram perfeitos, todos feitos por ela. E se você estiver se perguntando se eu comi os ovos que eu mesma descasquei, é claro que sim. Já disse que estou certa em 97% das vezes, os 3% foram em subestimá-la, mas obviamente depois do erro, me coloquei no meu lugar. Observação: nesse dia a nomeei como a melhor descascadora de ovos da cidade!

O segundo exemplo é menos bonito e engraçado do que esse exemplo dos ovos, foi em uma conversa com uma amiga trans em que ela dizia que queria ser "passável" e eu disse, nas melhores das intenções, que devemos nos preocupar menos com a forma como os outros nos veem, que ninguém está em posição de julgar ninguém e que podemos nos vestir como quisermos, porque no fim nada disso importa. Ela escutou e prontamente me corrigiu, então, não é uma questão de confiança, é uma questão de segurança, ser "passável" significa que minha vida será preservada. Para além de qualquer discussão acalorada sobre essa questão, é interessante como a minha vivência partiu de uma intenção boa mas que não tinha relação com os pensamentos e inseguranças da minha amiga. Também não vou discutir o mérito da diversidade de gênero ou sexualidade humana, o ponto não é esse e também não deixo espaço para essa discussão, já que geralmente é feita de forma rasa, com vieses políticos muito bem definidos que não me interessam.. O que quero trazer aqui é precisamente esse movimento de escutar o outro para compreender o que ele tem a me dizer e não o que eu imagino que seja verdade, porque as minhas experiências não refletem a experiências de toda a humanidade. E isso me lembra uma aula de antropologia que eu tive que a professora chamava de sortudas as pessoas que tinham a possibilidade de não se preocupar com certas coisas, enquanto outras não tinham escolha, senão se preocuparem com coisas que tinham relação com às escolhas de vida e experiências pessoais, porque as vezes é fácil julgar uma pessoa que se preocupa com alguma coisa, mas é muito difícil levar em consideração que as pessoas tem vidas diferentes e foram forjadas nessas experiências (ultimamente estou gostando bastante da expressão Forjadas pela vida, acho que explica de forma bastante satisfatória o processo de desenvolvimento humano).

Outro exemplo que me ocorre nesse momento é muito mais besta do que o anterior, e envolve macarrão e tempo de cozimento (pode-se perceber que eu falo bastante sobre comida). Estava um dia conversando com um amigo e ele disse que faria macarrão para comer, perguntei quanto tempo em média ele deixava cozinhando e ele me respondeu que era entre 10 e 15 minutos. Fiquei muito chocada, disse que se eu colocasse o macarrão para cozinhar e deixasse por 10 a 15 minutos depois eu iria comer uma pasta, um creme, um purê de macarrão kkkk. Ele disse que gostava do macarrão macio mesmo, e eu expliquei que geralmente se deixa de 7-8 minutos para ficar al dente e terminar de cozinhar no molho, no máximo do máximo 10 minutos. A conversa ficou por isso mesmo. Alguns dias depois, voltamos a falar sobre macarrão e calhou de eu perguntar que tipo de macarrão era aquele, ele tirou uma foto e me mandou, e eu vi que a espessura do macarrão que ele cozinhava era bem mais grossa do que o espaguete que eu estava cozinhando. E mais uma vez eu aprendi a minha lição.

Mais um exemplo, dessa vez com uma das pessoas mais inspiradoras da minha vida, a minha amiga da academia, eu ia sempre na academia com ela e sempre iam várias pessoas parecidas, mas eles paravam sempre, e de forma geral, só eu e minha amiga continuamos tão assiduamente, e um dia eu comentei com ela que nós eramos as únicas que continuavam e dei exemplo das pessoas que começaram com a gente e tinham parado. (Confesso que comentei com uma sensação de exclusividade mesmo, não exatamente superioridade, mas no sentido de: olha como somos especiais e fortes). E ela disse uma única frase que desmontou toda a minha comparação desnecessária e me relembrou de quem eu realmente sou: "Cada um sabe o quanto pode vir, né?". E eu disse sim. Aceitei. Cada um sabe sobre si. E não preciso me comparar para me sentir melhor (assim como não preciso me comparar para me sentir pior).

Por fim, um último exemplo, dessa vez eu mesma busquei ser colocada no meu lugar, considere que eu sou uma pessoa que gosta de ser descrita, então eu costumo perguntar para as pessoas o que elas acham que eu preciso melhorar ou convido para fazer exercícios de autoconhecimento, para que juntas podemos saber mais sobre nós mesmas. Nesse exemplo, eu tinha perguntado para a minha prima o que ela acha que eu poderia melhorar na minha comunicação com ela e ela disse que eu deveria falar mais por favor. Pronto. Que maravilha! Uma frase tão simples mas que realmente mostra uma tarefa muito difícil, não porque a pronúncia das palavras por favor é difícil, pelo contrário, a pronúncia é muito fácil, a dificuldade vem de compreender a necessidade do por favor. A minha lógica pessoal é que o por favor dá a impressão de algo muito mais sério do que realmente é e que eu não estou sendo próxima o suficiente ou falando as coisas de forma espontânea, mas a busca deve ser pelo caminho oposto, deve ser espontâneo para mim falar por favor, tanto para pessoas que não conheço (o que me parece muito mais fácil) quanto para pessoas que conheço e sou bem próxima. É claro que depois desse dia eu busco falar mais por favor, mas essa atitude também é um processo lento que aos poucos vai acontecendo de forma mais natural.

O que me surpreende nesses exemplos é que eles não são lições desconhecidas para mim ou que eu nunca tive contato, até acho que se eu nunca tivesse pensado nessas coisas antes elas passariam despercebidas num jeito que eu nem sequer mudaria as minhas atitudes porque eu não compreenderia o meu comportamento e impacto nas pessoas. Esses exemplos condensam valores e filosofias que eu JÁ TENHO e busco ter, e é por isso que essas experiências acabam me tocando de forma mais profunda porque são momentos em que eu acabo não sendo quem eu gostaria de ser sempre, mas ao mesmo tempo é muito bom saber que eu estou tenho essas oportunidades de aprendizado, porque muitas vezes nós nem percebemos o que fazemos e vivemos meio em piloto automático. E é também um pouco irritante, olhar para si e se ver caindo em armadilhas já desarmadas filosoficamente muito anteriormente, é claro que eu não devo ficar me comparando (hierarquicamente), as pessoas são únicas, mas as vezes acontece.

No começo do post eu falei a seguinte frase:

Vou contar alguns exemplos e depois explorar um pouco a importância de entender que "colocar-se no lugar do outro" nem sempre é uma boa ideia, já que você nunca vai ser o outro e também que se colocar em seu lugar é se colocar num lugar de aprendizado perante a vida.

Destaco que prometi, no começo, falar sobre dois tópicos, o "colocar-se no lugar do outro" e se colocar num lugar de aprendizado na vida. Fica fácil entender que eu me coloquei no lugar dos outros em todos aqueles exemplos, mas não pela perspectiva de que o outro é o outro e sim com a perspectiva de que EU estava a decidir pela vida do outro ou que eu tinha percepções sobre o outro que estavam mais corretas do que o próprio outro sobre si mesmo, evidenciando que nem sempre se colocar no lugar do outro é de fato uma coisa empática de se fazer (vou fazer um post só sobre se colocar no lugar do outro, porque tenho um pouco mais de material para isso). Então, acaba que esse post é um pouco da resposta de um post futuro que vai se chamar algo relacionado com se colocar no lugar do outro, enquanto esse é a "solução", me colocar no meu próprio lugar.

E que lugar é esse?

Para além de uma resposta filosófica "onde é meu lugar no mundo?", respondo de forma simples que o lugar ideal nessas situações é esse lugar de aprendizagem transitório, onde posso das alguns passinhos para trás para redefinir alguns pensamentos e sedimentar com mais solidez os valores nos quais eu acredito essenciais. Me colocar no meu lugar não tem a ver com me diminuir, porque não estou tentando me encaixar. Me colocar no meu lugar é dar espaço para que o outro se coloque em seu lugar e que eu tenha respeito pelas decisões do outro e dê liberdade para que eles possam seguir as suas opiniões. É fácil? Não, exatamente.

Com algumas pessoas eu sinto que sou muito mais mandona do que com outras, mas é um aprendizado contínuo de estar me colocando de volta no meu lugar. A minha opinião é válida, mas ela não passa de uma opinião.

Nesse post fico devendo destrinchar mais o movimento de se colocar no lugar do outro, porém, agora é a hora de me colocar no meu lugar!!


É isso, até maisssssss xd




 
 
 

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