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A beleza e a bela

  • Foto do escritor: Mar
    Mar
  • 23 de jun.
  • 11 min de leitura

Não faz pouco tempo desde que postei meu ultimo post, e a cada vez que algo vai se distanciando em tempo, maior é a resistência em recomeçar, como se uma inércia na direção contrária daquela que eu queira fosse me levando para a desistência total do projeto do blog. Mas como isso não é o que eu quero, trago uma reflexão aqui hoje: a contradição na necessidade de ser bonita.


Primeiro existem algumas coisas para se dizer sobre a beleza em si. Eu poderia falar de forma histórica, biológica, científica, social, mas nem mesmo uma definição de beleza é suficiente para revelar seu significado, isso porque seu significado é amplo, condicional, contextual e relativo.



BELEZA EM MUITAS VISÕES

Platão (e posteriormente São Tomás de Aquino, Aristóteles e boa parte da tradição católica como um todo) tinha a beleza como parte de uma tríade: bom, belo e verdadeiro. A partir dessa visão, a virtude máxima seria buscar esses três elementos para ter uma vida virtuosa. Beleza nesse caso tem um apelo moral, estético e voltado à "harmonia" e funcionamento da realidade, mas não se limita à sociedade, também se relaciona com a forma como as pessoas, individualmente, são vistas e valoradas. (Valoradas e não necessariamente valorizadas).

Parte dessa visão continua hoje, mas ela não é a única. O belo estar relacionado com o bom, nem sempre é um fator defendido até mesmo pelas esferas que defendem essa tríade. Como por exemplo a dicotomia mulher bela e recatada, mulher pura em contraste com a mulher bela e fatal, perigosa. Ambas possuem um elemento de beleza envolvido, mas e as mulheres feias? Geralmente são colocadas como ruins. Então, se o belo pode ser bom e ruim, o feio geralmente é visto como algo digno de pena, ou ruim, ou mal.

Colocar a mulher nesse lugar de dualidade é muito interessante do ponto de vista do controle social porque limita a possibilidade de expressão feminina (e em ultima instância humana) como algo segmentado e conflituoso e isso acaba por dificultar a integração da identidade do sujeito mulher nas sociedades ao longo do tempo.

Ainda sobre a beleza, podemos citar alguns argumentos comuns aos defensores de uma beleza puramente objetiva. Em primeiro lugar, porém, faço uma crítica à esse modelo de beleza puramente objetiva, pois ao criar uma categoria genérica de beleza, produzimos uma categoria também daquilo que é desejável, ainda que não o seja de antemão. Também falaremos mais a frente de outras problemáticas. Mas o que é importante aqui é pensar em como uma produção do que é belo também produz um desejo que retroalimenta o que é visto como belo.

Vamos aos argumentos...

O primeiro argumento comumente utilizado, e dessa vez vou me aventurar apenas na beleza feminina e não na beleza masculina, é o argumento da simetria. Um dos estudos mais utilizados nesse argumento é o estudo em que eles colocam bebês para observar rostos diferentes, e os bebês permanecem observando mais as faces simétricas. Até aí, não há nenhuma objeção, o que critico aqui é o salto lógico que coloca observar por mais tempo = beleza.

Outra coisa comumente dita é que as mulheres costumam se vestir umas para as outras e não para impressionar outros homens. Tendo em vista que a forma de se vestir está relacionada com como uma pessoa se expressa e que lugar ela tem no mundo, é uma interpretação bastante rasa dizer que as mulheres se arrumam mais para outras mulheres do que para outras. Digo isso porque a ideia que se espalha na internet vem de uma pesquisa de campo com 50 mulheres (número ínfimo para uma pesquisa) e que elas dizem que preferem se vestir para outras mulheres porque o elogio que vem delas é mais genuíno. Porém, isso abre margem para muitos questionamentos. Por exemplo, essas vestimentas que recebem mais elogios ou não, é voltada, criada e produzida por quem e para agradar a quem? Ainda que o emissor de elogio seja uma mulher, a raiz do elogio está pautada em ideias de beleza e estilo que tendem a favorecer o olhar de quem? Outro questionamento é, porque essas mulheres entende que o elogio masculino é menos genuíno do que o elogio de uma mulher? E por fim, as mulheres dessa pesquisa se atraem por qual gênero?

Enfim, ao falarmos sobre beleza vamos nos esbarrando invariavelmente no conceito de atratividade, atração, alguém belo é alguém desejável. Mas será que esses termos estão ou são tão intervalentes assim? Eu digo que não.

Falar de beleza de um aspecto mais amplo inclui pensar em tudo que vemos, não apenas humanos, então o que é belo não está necessariamente em algo que é desejável do ponto de vista do desejo atrativo (ou sexual), se parte da beleza não está necessariamente atrelada ao desejo, então é possível conceber que: o desejo pode estar relacionado com coisas não universalmente belas (existe universalmente belas?) e é possível achar algo belo que eu não tenha desejo pelo objeto belo.

Mas nesse sentido, ainda temos uma polêmica a ser resolvida, o que é beleza?

Então até aqui temos que beleza é uma coisa (vou chamá-la de coisa por enquanto), que as vezes está relacionada ao que é bom, as vezes ao que é ruim, que contrasta com o que é feio, que as vezes está relacionada com o desejo, que as vezes não está relacionada com o desejo e que não pode ser definida unicamente pela simetria. Então o termo em si carrega em sua definição contrastes e contradições instransponíveis, isso porque, ainda que tenhamos definições abstratas do que é beleza, ainda não conseguimos universalizá-la no mundo geral de forma a transformá-la para além de uma mera abstração. Isso é, no concreto a beleza está sempre em relação à algo.

E isso me traz à discussão da proporcionalidade, da comparação e por fim, de nós, humanos e a nossa relação intrapessoal do que é ser bonito.

Muitos argumentos do que é ser bonita está sempre fundamentado em proporções arbitrárias, seja colocadas com roupagens de saúde, ou até mais antigas como o homem vitruviano. Só que essas proporções são muitas vezes apenas mecanismos para que nós possamos ter algum comportamento que nos adeque à essas proporções.

Eu poderia falar um pouco sobre como a beleza se altera, dependendo da cultura, como por exemplo como uma mulher baixinha é menos querida na India, mas no Brasil é vista como fofa. Ou como homens nos EUA têm que ser acima de 6' e no Brasil a tolerância de altura é muito maior e o impacto de altura é muito menos relevante no contexto de relacionamento (ainda que haja muitas influências midiáticas que empurrem essa ideia goela abaixo por aqui).

O fato é que o que é visto como belo está relacionado muitas vezes com a raridade da característica, ou com os valores sociais colocados em cada característica, com o quão fácil, com certas métricas. E o peso de cada característica muda socialmente.

Para uma pessoa que não se sente bonita, há dois caminhos a se fazer quando se enfrenta esse sentimento. O primeiro caminho é aumentar o padrão de beleza de forma que mais pessoas sejam incluídas e o segundo é questionar a necessidade de algo ser bonito para ser bom. Isso me faz pensar. Existe beleza além da estética? E é claro que sim.

Mas porque alguém gostaria de ser bonito? Para além da definição de beleza, precisamos pensar mais sobre o significado de beleza. Por ser um tema abstrato, muitas pessoas colocam características mais ou menos fáceis ou específicas para contribuir na definição do que é bonito, caindo muitas vezes em padrões exclusivistas que tem impactos principalmente na formação do desejo de pessoas mais novas, mas também na formação da percepção do belo e das tendências de atração.

E então depois de várias reflexões um pouco mais gerais podemos dar um toque um pouco mais pessoal para as coisas.

Ser bonito não é possuir características específicas que são consideradas bonitas, mas é ser parte de um grupo que tenha um significado social de bonito (que ainda está muito atrelado ao bom, desejado, legal e interessante) e diferentes grupos estabelecem diferentes características desejáveis ou não. Porém, como mulher, ser bonita pode também estar voltado aquela dualidade mencionada anteriormente da mulher bonita perigosa.

No primeiro caminho para lidar com a necessidade de ser bonita, isso é, o caminho da afirmação da ampliação do padrão de beleza, temos alguns desafios que é lidar com algumas contradições do que é hegemônico ou não. Uma mulher musculosa, por exemplo, vai ser considerada bonita em um contexto fitness, mas vai ser considerada feia em um contexto em que considera que mulher musculosa é masculina. Então, necessariamente aumentar o padrão de beleza consiste em relativizar o que é considerado hegemônico para diferentes grupos. Porém, essa busca por universalizar é quase que uma cruzada, pois as características desejáveis vão se alterando de acordo com muitas variáveis, como idade do observador, cultura, hobbies, passatempos, atividades diárias, trabalho, o que a pessoa consome na mídia e principalmente intencionalidade. E buscar que uma característica específica seja lida como bela é uma forma de incluir no rol do padrão de beleza algo que é construído e visto de forma negativa por algum segmento. Sabemos que, em última instância, o padrão de beleza segue uma tendência cada vez mais purista e específica, então pessoas que mantenham essa disputa em aumentar o padrão de beleza para que inclua cada vez mais pessoas, é muito interessante, ainda que seja uma luta muito grande.

Por outro lado, o segundo caminho vem para questionar a relevância da beleza. E isso de forma muito prática e individual. Vejamos....

Se pensarmos na intencionalidade, quando alguém sente a necessidade de ser belo, o que essa necessidade revela? Aqui podemos listar muitas coisas.

  • Sou amada se sou bonita;

  • Sou respeitada se sou bonita;

  • Tenho sucesso se sou bonita;

  • As pessoas me escutam mais se eu sou bonita;

  • Sou desejada se sou bonita

  • Sou levada a sério se sou bonita

  • Tenho mais valor se sou bonita

  • Mereço ocupar espaço se sou bonita

  • Sou mais feliz se sou bonita

  • Tenho mais escolhas se sou bonita

  • Sou mais protegida se sou bonita

Imagino que para homens essa lista se diferencie em alguma medida, mas seja parecida em outras. Mas o ponto é que a beleza, dificilmente é vista como um valor em si mesma, mas como um meio para alcançar alguma coisa e o questionamento é diretamente ligado à beleza como meio. Pois a afirmação "sou amada se sou bonita", por exemplo, exclui outras formas de amor que não estão ligadas à beleza. Ou seja, a pergunta que devemos fazer ao pensar sobre essas necessidades é:

  • Só sou amada se sou bonita?

  • Só sou respeitada se sou bonita?

  • Só tenho sucesso se sou bonita?

  • As pessoas me escutam só se eu for bonita?

  • Só sou desejada se sou bonita?

  • Só sou levada a serio se sou bonita?

    etc etc etc

E a resposta é obviamente não. Então a partir desse raciocínio, a beleza sai de um ponto exclusivo de condição para algo acontecer para um ponto de influência. É fato que as características que refletem beleza atualmente influenciam a percepção social de forma à influenciar o acesso das pessoas lidas como menos bonitas ao desejo, ao sucesso e ao respeito, mas de nenhuma forma é uma relação linear de troca, ou causa e consequência. Até porque vemos o tempo todo, pessoas "feias" com pessoas "bonitas", pessoas "feias" com sucesso, pessoas bonitas sem nenhum relacionamento, enfim, não é linear, não é como somar 1+1.

Então ao pensar na beleza como mais um fator da vivência do ser humano, podemos descentralizá-la como objetivo meio de alcançar algum objetivo. Então a pergunta que fica é: qual é uma relação possível, mais saudável, integrada e menos contraditória na vivência de ser ou não ser belo e como conviver com isso?


ALTERNATIVAS.

A resposta não é simples mas podemos pensar em algumas alternativas. A primeira é um exemplo da minha relação com a maquiagem. Vou contar a minha história brevemente pois talvez faça uma postagem só sobre isso. Mas basicamente, não tive uma socialização durante a infância voltada à maquiagem porque estava mais interessada no que meus irmãos estavam fazendo. Além disso havia uma visão mais purista da maquiagem no meio religioso que eu vivia. E conforme fui crescendo, minha tendencia foi ir caindo em uma visão de que maquiagem é alguma coisa rasa, feita para impressionar homens, fútil e desnecessária. Além de um discurso ainda muito embrionário de que as mulheres eram mais bonitas sem maquiagem e que se maquiar é mudar sua essência ou se esconder e eu não queria cair nessa armadilha ou gaiola que a maquiagem era para as outras meninas. Só que, nesse movimento, eu acabei me tornando dogmática. Então eu ainda estava sendo controlada por essa questão, ainda que por contraste à ela. Eu ainda acho que a maquiagem pode ser uma forma de se esconder, uma forma de mascarar inseguranças, uma forma de se adequar ao que os homens consideram bonito, etc. Mas essa não é a única história que a maquiagem conta, e foi aí que a minha percepção mudou. Porque eu não estava necessariamente errada quando mais nova, eu estava apenas me limitando, ou seja, a crítica estava lá, eu só não soube subvertê-la, parei na crítica, tropecei no contraste, cai no dogma e no final, buscava tanta aceitação quanto alguém que se maquiava todos os dias de manhã para ir para a escola.

Isso mudou quando eu passei a ver a maquiagem como um ato de expressão humana, assim como seres humanos pintam, dançam, se vestem e comem, seres humanos também podem se maquiar. E aí a alternativa está justamente nessa quebra de expectativa com o belo, mas também está na contemplação do belo pelo belo, ao mesmo tempo em que há a permissão de que o belo tenha muitos significados e não seja uma estrutura rígida de controle, mas um espaço de desenvolvimento emocional, afetivo, perceptivo e de inclusão. Não para considerarmos que tudo é belo, mas que possamos repensar o que é belo, criticar a necessidade de algo ser belo para que seja relevante e levar uma vida mais contemplativa.

Então em termos práticos, vamos lá. Na questão da maquiagem por exemplo, se antes maquiagem era sinônimo de maquiar inseguranças, hoje é uma pintura facial que uso para me expressar. As vezes quero dar destaque aos meus lábios, as vezes aos meus olhos, as vezes à tudo junto, as vezes não quero usar maquiagem nenhuma.

Outro exemplo prático é pensar sobre como eu mesma gosto de coisas que vão além do belo hegemônico e que nem sempre está relacionado à saúde por exemplo (se fosse só um reflexo biológico, como que pessoas que usam óculos seriam consideradas bonitas, já que possuem uma deficiencia ao ver, dificilmente sobreviveriam ou veriam uma prole criança que fugiu, dou esse exemplo porque eu mesma uso óculos e sei que eu não veria uma criança fugir se eu tivesse sem óculos). Então é ter sempre em mente essa imprecisão inerente de uma definição concreta, imutável e inviolável do que é beleza, mas que muitos aspectos a influencia e a beleza é apenas uma influencia em outros aspectos da vida.

Outra coisa é se lembrar de famosos que tem muito sucesso ou que escreveram o nome na história da humanidade que não seguem esse padrão de beleza engessado e muitas vezes esquisito.

Então a solução final é juntar os dois caminhos, reconhecer em si e no outro aspectos belos e também questionar a relevância disso no amar outro ou em viver uma vida plena, rumo à algum tipo de desenvolvimento pessoal.

E ainda que esse assunto seja muito mais complexo do que eu mesma escrevi aqui e que individualmente seja difícil pensar em soluções que mudem esse mecanismo de controle de fato, o que eu tentei fazer aqui foi dar um pouco de alívio individual para alguém que possa estar se sentindo feio. E a verdade é que, não tem nenhum problema nisso. Já que podemos sempre refletir que a beleza não precisa ser um paraíso a ser buscado, que pode se tornar uma prisão e que no final das contas é uma parte de vida, e não seu centro, isso facilita porque permite que a gente possa simplesmente contemplar a beleza sem se cegar por ela. E que (ainda vou fazer um post sobre isso) possamos nos permitir a ser, simplesmente, feios e que isso também tem força (política, inclusive).


Deixo aqui, então, uma última reflexão:




 
 
 

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