Como fazer perguntas melhores (diálogos) - Ma-nual
- Mar
- há 9 minutos
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Todos nós sabemos que para ter boas conversas precisamos ter a capacidade de fazermos boas perguntas, vamos explorar um pouquinho esse assunto, com algumas coisas que aprendi ao longo do tempo e que tenho que lembrar de continuar fazendo, porque funcionam para mim.

O primeiro adendo aqui é não é uma fórmula, o segundo adendo é que eu não estou colocando regras para ninguém a não ser eu mesma no meu próprio Ma-nual, sinta-se a vontade para se inspirar, discordar ou apenas observar e refletir nas regrinhas que eu sigo e que são flexíveis em alguma medida.
Ok, a primeira regra é:
Não pergunte aquilo que você quer responder.
Muitas vezes eu errei em uma conversa porque eu queria CONTAR algo que tinha acontecido comigo e para iniciar o assunto eu apenas perguntei para a pessoa sobre aquele assunto, vamos dar um exemplo: comi uma coisa muito boa hoje e pergunto à minha prima o que ela comeu, porque eu gostaria de falar o que eu comi. Mas esse tipo de abordagem tem três problemas principais:
Primeiro que eu não perguntei porque estava curiosa sobre a pessoa e sim porque eu queria falar sobre o que comi.
Segundo que, dependendo da resposta da pessoa, falar sobre o que eu queria responder pode dar algumas impressões distintas daquilo que eu inicialmente gostaria, porque a minha resposta será em relação ou contraste ao que a pessoa disser, ou até mesmo levar por um caminho totalmente imprevisível. Nesse exemplo da comida, imagina se ela dissesse que não comeu nada porque passou mal o dia todo. O tom da conversa mudou completamente e eu já nem estou mais interessada em contar sobre o que comi, mas sobre como ela está. Ou ainda se ela dissesse que vai comer um pudim maravilhoso, depois de um strogonoff de carne e cogumelos paris, com torradas de entrada e suco de laranja colhidos na serra catarinense, logo eu falar sobre o meu pão com ovo e gema mole não é tão interessante mais e pode parecer que eu estou "me colocando pra baixo".
E terceiro problema é que esse tipo de atitude mostra, pra mim, que havia uma insegurança em simplesmente falar algo sobre mim que eu gostaria de compartilhar porque parecia estranho simplesmente falar e não ter que introduzir um assunto antes para que o meu compartilhar fosse mais aceitável.
Então qual é a solução?
Parece até bobeira mas é muito mais simples do que parece, é simplesmente falar o que você gostaria de compartilhar e reservar as perguntas para quando você realmente estiver curioso PELA PESSOA com quem você está conversando e lembrar que falar sobre você não é algo chato, irritante ou entediante.
Com essa dica vamos para a próxima, que tem relação com essa.
Exercite a curiosidade.
Os seres humanos são fontes inesgotáveis de conhecimento, reflexão, desenvolvimento e fofura, então permita-se deixar levar pela curiosidade pelas pessoas. Quando entendemos que cada SER HUMANO na Terra tem uma história diferente, escolhas de vida, concepções, a vida fica mais interessante porque nós podemos aprender muito com uma pessoa simplesmente perguntando para ela coisas. A curiosidade sobre a pessoa pode ser em vários níveis, como por exemplo a história de vida dela, ou os pensamentos dela sobre algo, o que ela acha de certo assunto (lembrando que é porque você está curiosa sobre isso e não porque você quer falar o que você acha), planos para o futuro, etc. Existem infinitas possibilidades.
Ser igual e ser diferente.
Nós seres humanos somos iguais em alguns aspectos e diferentes em outros, parece óbvio, mas explorar essas semelhanças e diferenças em uma conversa pode ser bastante desenvolvedor para ambas as partes da conversa, principalmente para mim, até como uma forma de autoconhecimento. Com algumas pessoas, você terá que focar naquilo que têm de semelhantes, para manter os vínculos e fortalecer as dinâmicas de relacionamento, enquanto com outras, explorar as diferenças pode ser bastante surpreendente e uma fonte de conhecimento naquilo que o outro vive, pensa, sente e faz. Esse aspecto é importante também porque você acaba valorizando a pessoa por aquilo que ela é, e não apenas em como ela se parece com você, e você também se valoriza na sua diferença com o outro. As vezes temos uma tendencia de, ao estar conhecendo alguém novo, querermos combinar em tudo e sermos iguais, mas também há beleza no que não é igual a nós mesmos, e perceber isso é justamente o ponto de "virada" em uma comunicação/diálogo mais interessante, mais legal mesmo e até mesmo mais honesta, com você e com o outro, porque quando nos permitimos ser diferentes, também damos essa permissão ao outro de se diferenciar também. Então a lição que fica aqui é fazer perguntas sem medo que a resposta seja diferente do que nós mesmos responderíamos ou pensávamos, porque isso também pode nos fazer pensar por uma nova perspectiva. Podemos pensar nisso com uma metáfora de quebra-cabeça, se a pessoa é totalmente igual a nós, não vamos nos encaixar, mas se a pessoa for totalmente diferente também não vamos nos encaixar, o segredo de uma conexão, seja amigos, família, colegas de trabalho ou relacionamentos românticos está nessa dinâmica do diferente o suficiente para sermos pessoas distintas e interessante, mas parecidas o suficiente para nos conectarmos.
Por quê?!
Esse eu aprendi com um amigo meu (valeu!), e na verdade aprendi por contraste pois é uma dica para EVITAR, evite perguntar o porquê. Como assim? Te explico! Perguntar o porquê para alguém pode soar uma pergunta de julgamento se você não entender a que se pergunta o porquê das coisas. Vamos para os exemplos:
Perguntar o porquê alguma coisa funciona de uma determinada maneira para alguém que entende daquele assunto? SIM! Boa pergunta!
Ex. Meu amigo é eletricista e pergunto para ele porque tem duas voltagens diferentes para escolher.
Perguntar o porquê de uma escolha pessoal simples? Não! Pergunta ruim!
Ex. Por que você escolheu essa roupa? Por que comprou esse café? Por que você está usando vestido?
Essas perguntas não são ruins por si só, mas as vezes são desnecessárias e fazem parte de uma dúvida maior que pode ser respondida com outra pergunta. Se uma pessoa está usando um vestido sem mangas e está muito frio, você pode perguntar porque escolheu essa roupa na intenção de entender se a pessoa está com frio ou não, então pode perguntar diretamente "você está com frio?", ou ainda "você é uma pessoa friorenta?", ou pode até mesmo comentar "nossa eu estou com frio", mas de qualquer maneira, ficar comentando as roupas das pessoas é bem deselegante, no geral, o ponto aqui é não fazer a pessoa questionar suas escolhas a menos que isso seja sua intenção. O que nos leva para o próximo ponto.
Perguntar o porquê logo depois de alguém contar uma escolha pessoal? As vezes sim, as vezes não.
Seguindo o contexto anterior, essa pergunta seria considerada negativa, mas depende... Porque nesse caso o mais importante é não perguntar apenas porque como se fosse um questionamento à atitude, mas como forma de compreender motivações, então se alguém diz "vou sair do emprego" e eu digo "porque?" é algo que eu consigo explorar e expandir o assunto, mas se alguém me diz "vou pintar meu quarto de verde" parece meio desnecessário perguntar o porque aquela cor foi escolhida, visto que os motivos são limitados, a pessoa poderia já ter aquela cor ou gostar dela, então a pergunta porque fica meio solta e não expande muito a conversa, tipo "vou pintar meu quarto de verde", "porque?" "porque eu gosto da cor", fim da conversa. Ou por exemplo, "vou fazer minha apresentação no canva" e você pergunta "porque?", também limita as possibilidades de resposta da pessoa, "porque eu gosto", "porque é uma ferramenta versátil", "porque sim", "porque tem bastante opções", quando você poderia perguntar, "sobre o que é a apresentação?" "como é o canva como ferramenta?" "faz tempo que você usa o canva?" "o que você acha sobre o canva?" "é melhor que o photoshop ou powerpoint?". Todas esses exemplos soam mais engajados do que um simples "porque". Ou, comprei uma bicicleta nova, tipo PARA QUE VOCÊ QUER SABER O PORQUÊ? Talvez pensar na dúvida de fato seja melhor.
Alguns certos eventos? Não!
Começamos com um exemplo, "meu irmão bateu o carro", perguntar "nossa! porque?" é uma pergunta péssima, porque é um acontecimento que muitas das vezes o porque não é relevante, mas o COMO é, então perguntar "como isso aconteceu?" é mais interessante, ou até mesmo demonstrar preocupação "ele está bem?" ou outras coisas do que "porque?".
Enfim, depois dessa explicação podemos entender que o POR QUÊ não é um vilão nas comunicações mas ficar perguntando o porque das coisas pode ser um pouco "preguiçoso" ou ter um tom "acusador", mas também pode ser útil se você quiser trazer reflexões e realmente questionar uma pessoa.
Mas sempre podemos pensar em outras mais possibilidades de perguntas para enriquecer a sua conversa, na verdade eu vou acrescentar isso também. Vamos lá.
Lentes de perguntas
Podemos separar as perguntas em duas grandes categorias de respostas, as perguntas abertas e fechadas. Não vou seguir nenhuma tipologia oficial de perguntas abertas e fechadas que são encontradas em definições pela internet, apenas falar um pouco sobre essas lentes, porque apesar de ter essa separação categórica entre aberto e fechado, na vida real essas categorias são muito mais espectrais do que as formulas encontradas por aí. Logo, uma pergunta que tende ao fechado são perguntas que limitam a resposta à sim ou não, e vamos passando pelas perguntas com alternativas, respostas esperadas ou delimitadas de alguma forma e vamos expandindo a lente até chegar à perguntas de fato totalmente abertas. Todas essas formas de perguntar são boas e interessantes, só é preciso alternar entre elas. Se quero saber algo mais específico, pergunto de forma a delimitar a lente com foco em uma resposta mais específica e fechada, e se quero expandir, pergunto algo com uma lente mais aberta.
Tipos de perguntas
Em inglês nós temos as "Question Words" que seguem a estrutura padrão de começar com elas "como, onde, quando, o que" e, apesar de seguir algumas estruturas diferentes, no português também temos esses termos que são interrogativos, então pensando nessas lentes de perguntas que falei anteriormente, podemos usar esses tipos de perguntas, entre abertas e fechadas para conversar;
Falei bastante do "por que" em um tópico anterior, mas também podemos falar sobre o COMO, QUANDO, O QUE, etc. Não vou falar sobre CADA UM DELES, mas é através deles que podemos aumentar ou diminuir a lente de alcance das nossas perguntas e fazer perguntas melhores, por exemplo, o QUANDO, pode ser usado tanto em perguntas mais específicas quanto em perguntas mais abertas, pois dá a possibilidade da pessoa de responder algo específico ou contar uma história, apesar de não exatamente "fechadas sim ou não". Exemplo, se eu pergunto "Quando é seu aniversário?" a pessoa pode responder algo mais curto, 30 de março, 20 de julho, etc, mas se eu pergunto "Quando foi a última vez que você fez algo novo pela primeira vez?", já abrimos a lente da pergunta para abarcar uma possibilidade maior de resposta, ainda que o quando não pressuponha exatamente o "que", geralmente as pessoas também respondem o que, a partir do quando, mas também é possível perguntar, "semana passada" "Ah é? O que foi?" etc. Porque também vai depender da resposta da outra pessoa.
Pergunte somente aquilo que você está preparada para a resposta.
O título dessa fala por si só, é isso mesmo, as vezes não temos coragem de perguntar algo porque não sabemos como lidar com as possíveis respostas dessas perguntas, mas aqui eu acredito que a solução não seja passar por cima disso e perguntar mesmo assim, algumas coisas podem ficar em aberto, até que você tenha coragem para lidar com as respostas, o que pode parecer ir contra aquilo que os coaches da internet sugerem para você "pergunte mesmo com medo", "só vai", mas nem sempre é assim e não precisa mesmo. Logo vou falar o porque isso não é covardia, mas vamos entender primeiro o porque isso é importante. Primeiro pensamos no "preparada", o que seria isso? Podemos pensar em preparo emocional, contextual, relacional, e um preparo que diz respeito ao Tempo e hora correta. Se o contexto não é favorável, então a pergunta não deve ser feita, se você não tem intimidade, então também não está preparada, se é muito tarde da noite e a conversa vai ser interrompida, então talvez seja melhor deixar para mais tarde e se o peso emocional da resposta for muito pesado para você, isso também revela algo para ser confortado, olhado, visto, considerado antes de fazer a pergunta propriamente dita. Além disso, perguntar sem estar preparada para a resposta é injusto com a outra pessoa, pois você não tem capacidade ainda de absorver a resposta que a pessoa (considerando que seja uma resposta honesta) faria para você.
Agora que entendemos um pouco sobre o auto respeito de não perguntar aquilo que você não consegue ouvir a resposta, pensamos um pouco na questão da "covardia" em não perguntar. Na verdade, o não preparo de saber uma determinada respostada, pode estar sim relacionado ao medo, mas, escolher não perguntar por medo, não é covardia, já que o medo pode ser repensado e considerado antes da própria pergunta. Então aqui, vale mais uma reflexão de aumentar a resistência ao desconforto ao mesmo tempo em que se respeita os próprios limites, para que um dia, se a resposta for de fato NECESSÁRIA você possa perguntar, então é mais um "se você não tem preparo para perguntar alguma coisa, se prepare e depois pergunte, pois as vezes o despreparo pode ser ainda mais prejudicial do que o tempo de espera entre a pergunta e o preparo". O sentido que eu mostro aqui, não é em contextos profissionais ou acadêmicos em que a coragem de tirar uma dúvida ou perguntar alguma informação é realmente importante para o desenvolvimento de uma pessoa, pelo contrário, nesse sentido a máxima dos coaches "pergunta mesmo assim" é útil e poderosa, mas em um contexto de relação entre duas pessoas, sejam amigos, pais e filhos, namorados, é importante sim esse preparo (dentre os diversos tipos de preparo citados) para que a conversa seja fluida. Por exemplo, na academia eu tenho uma dúvida de como usar um determinado aparelho e tenho medo de que a professora da academia diga que não pode me ensinar, é um medo genuíno, mas eu preciso lutar contra o desconforto e esse medo porque é uma informação, uma lição, um ensinamento que eu preciso saber. Agora, diferente é o marido perguntar para a esposa quem é a pessoa mais especial da vida dele e escutar que é a melhor amiga, a tia, a mãe, por exemplo, é uma resposta que não é necessária e pode trazer rusgas ao relacionamento, porque talvez ele não esteja preparado para ouvir uma resposta diferente daquela que ele tinha imaginado, por isso recomendo que NÃO pergunte esse tipo de pergunta se não estiver preparado para ouvir uma resposta que não seja satisfatória para você. Agora, se você estiver, então faça, mas reaja com sabedoria.
Fim :)
A linguagem é uma ferramenta e meio de conseguir se conectar com as pessoas e quando eu digo sobre fazer perguntas melhores, não é com a intenção de classificar o que é certo e errado em uma conversa, mas sim refletir sobre o que fazemos e porque fazemos e a intencionalidade atrás das nossas perguntas. Ainda vou fazer algum post sobre isso conforme vou aprendendo a perguntar melhor.
Por hoje é só, até a próxima! :)







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