O Silêncio (e o Falar)
- Mar
- há 12 horas
- 9 min de leitura

Esses dias, de madrugada, ouvi um barulho, um pequeno som ritmado, pensei que era a minha geladeira sinalizando que talvez já quisesse se aposentar. Mas como poderia? Tem no máximo uns 4 anos. No dia seguinte, descobri do que se tratava aquele barulhinho de fato: uma cigarra.
Uma linda cigarrinha verde esmeralda. Seu corpo realmente parecia feito da mencionada pedra mencionada diamantada em pequenos fractais de luz e brilho. Era quase manhã, o sol e a lua brincavam de cabo de guerra para saber quem iria permanecer, era uma luta perdida, a lua sabia que tinha que deixar ir, ainda que, muitas vezes, no verão, fazia jornada dupla, quiçá para observar as andorinhas?
Sim! As mesmas andorinhas que eu observava aquela manhã. Senti-me (e me vi, em realidade) sozinha, mas o canto dos pássaros, tão estridentes e animados, me tirou do transe da solitude e me pôs a refletir: quando foi que eu parei de refletir?
O começo do ano foi tão caótico, mas ao mesmo tempo eu pude descansar. Deixei inúmeros rituais para trás, mas ao mesmo tempo me sinto sobrecarregada. Pensei, em muitas coisas que aprendi, no ano passado. Acho que ano passado eu aprendi a falar. Eu que sempre escutei a todos, aprendi também a falar. A me posicionar, a dizer SIM.
É engraçado que a maioria das pessoas têm dificuldade para dizer não, enquanto eu tinha dificuldade para dizer sim e talvez seja exatamente por esse motivo que eu sempre busquei alguém que falasse mais SIM do que não e que topasse aventuras e diversões.
A reflexão, longe de ser sistematizada, não nasceu nas asas das andorinhas, obviamente, mas se desdobra desde muito tempo, pequenos fractais (tais quais o corpo da cigarra) de pensamento que pouco a pouco se compõem em uma joia final. Quem poderá definir o valor do meu pensamento final? Claro que ninguém. E digo isso porque as vezes eu acho que eu não estou fazendo nada, mas estou. Sempre.
E nessa manhã, especificamente, tive vontade de escrever. Aqui. E percebi que eu estava evitando porque eu achava que eu tinha que terminar um post antes, dos livros que li ano passado, mas sinceramente, não importa, e por isso convenci a mim mesma a escrever.
Como disse, eu pensei sobre o ano passado, sobre a minha aprendizagem em falar. E como todo início de aprendizagem eu tive que lidar com excessos, com erros de "opa, falei demais" ou qualquer coisa nesse sentido e algo que eu ainda estou lidando é com a pós-fala.
Quando eu digo que falei demais, eu não quero dizer apenas sobre FALAR, verbal, mas também em questão de atitude, eu de verdade, me posicionei mais, disse mais coisas. Foi interessante e ao mesmo tempo, como disse, eu ainda não aprendi a lidar com os sentimentos pós ação. Quero fazer um post só sobre isso, sobre o pós ação, sobre como lidar com o "cringe", ou seja, com a vergonha alheia de si mesma.
Já adianto que penso que essa vergonha alheia de si mesmo vem do fato de não se identificar com a pessoa que agiu daquela forma em sua identidade pessoal.
As consequências das minhas ações não foram ruins, foi um grande aprendizado ter vivido todas essas coisas. Mas esse ano, ou pelo menos, por agora, eu quero aprender outra coisa: o silêncio.
Mais ainda, não quero aprender o silêncio e nem a falar. Já que, a linha de base anterior era justamente o silenciamento pessoal em detrimento da validação dos meus próprios sentimentos. Agora que aprendi a validar meus sentimentos e o que eu acredito, eu preciso refinar isso. Agora que eu estou mais confiante naquilo que acredito e naquilo que sei, eu preciso tornar isso precisamente infinito.
Infinito não no sentido de nunca acabar, porque sei que um dia vou morrer, mas infinito no sentido de que seja profundo, refinado, sistematizado, solido, sem amarras, circuloso (palavra inventada, conferir na página de palavras inventadas), sem começo, meio e fim, mas um sistema integrado de informações.
Assim, o que eu quero é realmente integrar, continuar o processo de integração, como eu já disse anteriormente, o capítulo de integração é o capítulo mais longo da minha vida até agora, pois eu tenho muitas coisas para integrar, e o silêncio e a fala é uma delas. Mais do que isso. É uma das PRINCIPAIS delas.
REFLEXÕES E PERGUNTAS PARA PENSAR.
Primeiramente, eu odeio escrever em tópicos porque é como se eu tivesse escrevendo como uma inteligência artificial kkk, mas agora vai ser um pouco necessário. Nesse processo de integração entre Fala e Silêncio tenho algumas perguntas para pensar, a primeira delas que quero refletir é:
Quando é a hora certa de dizer e calar?
É obviamente uma pergunta de um milhão de dólares, como é que podemos saber a hora certa de falar ou de calar-se quando só temos a certeza ao passar pela consequência de dizer ou não dizer. No meu caso eu não quero para de falar, pelo contrário, eu aprendi a falar recentemente. Então eu quero aprender a direcionar a fala e para isso além de perguntar "QUANDO" se faz necessário perguntar "o quê?", "para quê?", "por quê?", "para quem?....
Também é necessário um olhar atento ao meu próprio estado de consciência nesses momentos, será que eu tenho energia para falar nesse momento? Quanto de energia isso vai consumir?
Com essas perguntas em mente, muitas vezes a tendência de falar mais do que eu devia vai diminuir.
Por fim é preciso pensar no contexto. Tudo é contextual, o que você vai falar com seus amigos, na escola, no trabalho, na sua casa, com seus avós, em um funeral, tudo isso vai depender do contexto. Dessa forma então temos alguns fatores: perguntas bases relacionadas ao conteúdo, minha própria condição de me expressar e estado no momento e contexto.
Além desses três temos uma pergunta muito importante: "eu sei do que eu to falando?"
Se a resposta for sim. Então que bom. Mas se a resposta for não, eu preciso exercer a minha responsabilidade e me calar. E claro, aprender sobre o assunto.
FALAR E CULPA
Por estar sempre acostumada a ficar em silêncio (tudo é contextual, no sentido de que ainda que eu fale mais do que a maioria das pessoas, isso é apenas porque eu penso mais do que a maioria (provavelmente) e então proporcionalmente eu sentia que eu não falava nada e que eu vivia mais dentro da minha cabeça do que na vida) eu tinha a sensação de que as pessoas não queriam me ouvir. Mas muitas vezes eu estava errada, porque as pessoas me levam a sério. E ser levada a sério é tenebroso para uma pessoa como eu, porque eu não tenho as ferramentas certas para lidar com isso e nem a maturidade emocional também. Então, diversas vezes me antecipei, falei demais, falei sem fonte, falei sem ter certeza, falei da boca pra fora, falei do que não queria ter falado, falei do que não DEVERIA ter falado, falei de coisas que eram meus segredos, cantei em lugares que não deveria ter cantado, me arrependi.
Mas eu não me arrependi completamente, tem uma diferença na qualidade do arrependimento que eu senti, não era uma arrependimento pelo conteúdo da fala, mas um arrependimento de ter agido sem ter as ferramentas para lidar com a culpa das minhas atitudes.
Um arrependimento não por moral, mas por vergonha. Porque no começo da aprendizagem os excessos aconteceram, e agora sinto que só estou no meio dela e por isso é importante o equilíbrio, isso é, a integração.
A vergonha e o tédio são inimigos mortais.
É menos doloroso lidar com a vergonha do que lidar com o tédio, porque a vergonha dói meu coração e o tédio dói minha alma, minha cabeça, me faz me sentir inútil. A vergonha me dá pelo menos o prazer de saber que fiz alguma coisa.
Mas fazer alguma coisa não é relevante em todos os contextos. E as vezes tenho vontade de gritar.
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Enfim, acho muito positivo, da minha parte, ter iniciado o movimento de falar mais, ano passado. E agora, como continuidade desse movimento, vou começar a escolher melhor o que eu falo, para quem falo, como falo, quando falo, para que falo, onde falo, em que contexto, em que situação, com que tom de voz, com que objetivo, etc.
FALAR E CALAR - APRENDIZADOS.
Primeiro eu tive que aprender a lutar, agora vou aprender a escolher minhas batalhas. Nem tudo vale minha energia, pensamento, reflexão. É porém, como já falei, de suma importância que eu esteja aberta a me contradizer. Isso mesmo.
Em inglês temos a palavra "clash" como duas coisas que caminham em direção opostas e em virtude de ambas continuarem a inércia do movimento, se chocam. É precisamente isso o processo de integração, o choque entre as minhas contradições para que eu possa metabolizar e incorporar o choque para construir uma terceira coisa, nem parecida com a primeira, nem parecida com a segunda, mas com os elementos de ambas as coisas em uma coisa totalmente nova, transformada, digna da história que quero escrever. Então eu tenho que estar pronta para me desafiar e é aí que mora o mais novo perigo. O que fazer quando as pessoas me desafiarem?
Esse é o cerne de toda a questão!
Eu não tenho problema em me desafiar, em tentar pensar por diferentes perspectivas, mas tenho uma dificuldade gigantesca (que se agravou ultimamente) em deixar outras pessoas dizerem o que eu tenho que fazer, me levando a me justificar a toa e até mesmo questionar a mim mesma. Ultimamente eu não venho me questionando, e isso é muito positivo, comparado ao grau de feridas que isso me causava no passado, quando eu só deixava as pessoas pisarem em mim. Mas eu não quero apenas ser uma rebelde com causa, por isso penso na solidez do argumento e também considero importante a intenção e modo da outra pessoa ao me abordar.
Há pessoas que são mestres em discordar e então como lidar com elas? Algumas vezes é necessário se afastar, exercer o silêncio, outras vezes é necessário pensar na dinâmica de relacionamento que vocês têm para verificar o melhor a ser feito. O que acontece com "vocês" se você desaparecer? Tipo, se você não fosse um elemento nessa equação, em que a pessoa te ajuda, te ensina. E mais importante ainda, como ela te ensina?
Tem uma coisa, que me irrita, e que antes eu não me irritava porque eu não reconhecia, mas ainda assim causava muito atrito nas relações que era, eu sempre ser a dona do assunto e o outro ser apenas um advogado avaliando o que eu trouxe à tona, enquanto que o outro nunca de fato trazia nada. Isso faz com que haja um desequilíbrio na relação. Em que os conflitos ocorrem não por discordância, mas por desgaste. Se apenas uma pessoa tem o papel de entreter e outro de avaliar, uma hora ou outra a amizade, relacionamento ou vínculo no geral acaba.
Então nesses casos, em que há esse padrão de discordância, é preciso muito cuidado para agir da melhor maneira em cada caso. Não tem uma resposta definida, vai depender do seu coração.
Quando é uma coisa que não te importa, é mais fácil lidar com críticas. Porque não importa para você. Mas ainda assim, algumas pessoas parecem gostar de criticar pelo bem do debate, o que, na verdade não acrescenta em nada na conexão, mostrando uma diferença na prioridade do indivíduo em relação à relação.
Se uma pessoa tem como prioridade a conexão e o vínculo com outra, então o conteúdo do debate torna-se secundário, passando a prioridade para o aspecto relacional, isso é, a necessidade de debate.
Evitar um debate, muitas vezes não é falta de posicionamento, porque nem sempre é necessário e proveitoso transformar uma conversa em uma discussão. Um diálogo sempre pressupõe duas perspectivas distintas mas não necessariamente opostas, não é? Qual a necessidade de sempre trazer um contraponto a alguma conversa? (ainda vou fazer um post sobre essas relações).
Nem sempre é necessário esse contraponto, principalmente quando o objetivo da conversa é enriquecer o que está sendo dito.
Por exemplo, se eu digo, A, a pessoa pode optar por apresentar uma informação que contrapõe A, trazendo um contraste para o assunto ou aprofundar A, isso é, para além de questionar as estruturas de A, trazer mais elementos que contribuam para a construção de A, com esses elementos é possível verificar as contradições nos próprios elementos quando eles mesmos se chocarem do que transformar uma conversa em um debate.
E é isso que eu preciso aprender, tanto a evitar esse tipo de debate desnecessário, quanto a como me retirar desses debates quando outros me colocam sem eu querer (acontece com frequência) e ainda mais, quando participar de discussões de fato, porque eu acredito que elas são importantes e que são boas tanto para conexões (por mais que seja difícil) quanto para o crescimento pessoal. Além de como lidar com o ressentimento nessas situações. Estudar, debater, aprender e ensinar é importante, lembrar do nível do seu oponente também e quanto de crédito você deve dar. Não subestimar. Não superestimar. Tomar cuidado com os sonsos. (vou fazer um post sobre os sonsos do debate).
Ainda sobre a integração do falar com o silêncio, devo também aprender sobre as minhas emoções.
NO FIM
Além disso, ainda tenho que aprender o silêncio em sua forma de cura, quando é a hora de silenciar para proteger um vínculo ou quando é a hora de conversar para proteger esse mesmo vínculo. Tenho que aprender o silêncio como forma de cuidado, na hora de escutar o outro, sem interromper. Tenho que aprender o silêncio como forma de aprendizado, quando alguém souber mais do que eu, ainda que isso fira minhas estruturas, escutar, para aprender a integrar.
E por fim, tenho que aprender o silêncio em sua forma mais pura. O silêncio de fato, silenciar-se, o silêncio da alma. Ficar em silêncio para o mundo e se abrir para o universo. Meditar, no silêncio que a mãe (sim, mãe) de todos os sons.
E se você estiver me perguntando: O que aconteceu com a cigarra? Nada! Eu só varri ela para fora e ela caminhou para um cantinho do lado de fora da casa. Quem sabe algum dia desses eu a veja, em outra pele, em outra estação, em outra vida.
Até mais.







Comentários