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Se colocar no lugar do outro - Empatia Radical

  • Foto do escritor: Mar
    Mar
  • há 18 horas
  • 7 min de leitura

Esse é um post que vai continuar o que já escrevi no post passado, se quiser ler primeiro, fique a vontade:



Eu geralmente inicio os meus posts com exemplos que baseiam a reflexão posterior, então dessa vez não será diferente. Quando eu era criança, eu estava brincando com alguma outra criança que não lembro se era minha prima, meu primo, meu irmão ou alguma criança na escola, mas que ela pedia para eu dar cosquinhas nela, e eu ODEIO cosquinhas (aparentemente também sou contra o uso da palavra coceguinhas corretamente kkkkk ), e eu dava cosquinhas nela porque ela pedia para que eu desse. Até aí, tudo certo. Porém, essa criança começou a fazer cosquinhas em mim também e eu pedi para parar, porque eu não gostava, obviamente. Pouco eu sabia que uma frase com um grande potencial de desenvolvimento de empatia seria fruto de uma contradição ao ouvir a criança de defender de suas ações dizendo "tem que tratar os outros como eu quero ser tratado e eu gosto de cosquinhas".

Que loucura né?

Eu não lembro do desfecho dessa história, mas agora eu imagino que tenha sido com meu irmão.

Com essa história, quase cômica, podemos refletir um pouco sobre a frase "trate os outros como gostaria de ser tratado", basicamente minha tese é que essa frase é incompleta porque não devemos tratar os outros como gostaríamos de sermos tratados, assim como a negativa também é igualmente incompleta: nas frases "Não trate os outros como não gostaria de ser tratado" e "não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você" fica implícito uma ideia de que você não deve fazer algo a menos que gostaria que alguém fizesse isso com você também. Eu entendo porque as pessoas dizem essas frases, é claro, mas fico refletindo que ela não faz tanto sentido assim, pois por exemplo, alguém que ama uva passa adoraria ganhar uma caixa de bolachinhas de aveia com passas ou um pote de sorvete de passas ao rum, enquanto que eu ODIARIA. Ou seja, a frase mais adequada para o exercício de uma empatia que descentraliza o empático, isso é, uma espécie de empatia radical, seria mais próxima de "trate os outros como eles gostariam de ser tratados".

Quero dar um destaque nessa ideia de empatia radical e descentralização do empático, porque muitas vezes a empatia da forma como é geralmente incentivada, na verdade não leva o outro em consideração. Isso abre espaço para pensarmos sobre nos colocarmos no lugar do outro de forma geral com algumas outras expressões e refletirmos sobre como ser empático "de verdade" ou pelo menos, nos dá algumas novas ideias sobre as coisas.

Pensando em termos definitivos, ou seja, no caráter da definição, a empatia seria, pelo dicionário:

Capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria; compreensão: demonstrou empatia ao ouvir os problemas de sua mãe. Aptidão para se identificar com o outro, sentindo o que ele sente, desejando o que ele deseja, aprendendo da maneira como ele aprende etc.; identificação.

(copiei do site dicio).

Mas ao problematizar a possibilidade de se colocar no lugar do outro, a definição de empatia a torna algo que eu particularmente, deixo de buscar desenvolvê-la. Se a empatia, no entanto, for colocada num lugar de compreensão dos sentimentos, atitudes, pensamentos, dos outros, para além da necessidade de uma identificação ou pareamento de sentimentos, então gostaria de desenvolvê-la. Em outras palavras, enquanto a empatia buscar uma mera identificação dos sentimentos dos outros em relação aos meus, não estarei de fato observando e buscando compreender os outros em si mesmos, mas centralizando a minha lente de visão e minha própria perspectiva na relação do outro com a sua própria vida.

É óbvio que até mesmo a compreensão dos sentimentos, atitudes e pensamentos dos outros sempre vai passar pela minha percepção individual das circunstâncias, então por isso também tem suas limitações, mas o objetivo não é negar as limitações e sim buscar meios para superá-las, pensando em aumentar o respeito às diferenças e não nos colocando como a régua para aquilo que é bom, aceitável, ruim, inaceitável. A empatia definida como "se colocar no lugar do outro" apenas, já carrega em si a limitação do próprio movimento de que se colocar no lugar do outro implica em ainda ser você.

Para visualizar isso podemos usar a expressão em inglês de calçar os sapatos alheios, "be in someone else's shoes", nessa expressão podemos considerar todos os elementos como as analogias muito próximas da realidade que quero evidenciar. Nessa frase em específico temos o sapato de outra pessoa, que representa a situação em que a pessoa se encontra, ou seja, colocar-se na situação de outra pessoa. E isso é o primeiro passo mesmo, o segundo passo é se lembrar que apesar de que ao colocar o sapato alheio você tenha algum entendimento da situação alheia, ainda é o seu pé que está ali e aí podemos relacionar com a frase em português "cada um sabe onde o calo aperta".

Porém, com essa ideia de empatia radical podemos pensar que não precisamos necessariamente fazer um pareamento de sentimentos NOSSOS com os sentimentos dos OUTROS para que possamos entender e compreender sua situação. E assim, se colocar no lugar do outro é desaparecer de si para que o outro possa ser você.

Quando vamos dar alguma sugestão para alguma pessoa, tendemos à dizer "Se eu fosse você eu teria feito X" ou "eu faria X", mas na verdade muito provavelmente se você fosse de fato a pessoa à quem se dirige a frase então você não teria feito X e sim teria feito o que a pessoa fez porque a pessoa agiu de fato como ela agiria, agora se a mesma situação tivesse acontecido com você então sim você poderia ter agido diferente porque é uma pessoa diferente. É que, portanto, as ações das pessoas tem um aspecto histórico (não no sentido História), mas no sentido de que tem uma história por trás das atitudes das pessoas e dificilmente elas agiriam diferente do que agiram.

Agora isso nos coloca mais uma camada na frase "se colocar no lugar do outro", porque se colocar no lugar do outro pode significar levar consigo a sua própria história e colocá-la na história do outro. Entende como isso pode ser um problema?

MAS acredito que se isso for ao contrário, pode ser muito útil como exercício de reflexão "O que fulano faria no meu lugar?", "Se fulana estivesse aqui, o que ela faria?", mas daí é uma coisa completamente a parte do sentido do post propriamente dito, então não vamos falar disso.

Voltemos à ideia de se colocar no lugar do outro...

Particularmente para mim é meio difícil colocar em prática essas ideias com algumas pessoas em específico, principalmente quando eu de fato me importo com a pessoa, pois sinto uma necessidade em querer ajudá-la, ou dar conselhos, ou fazer com que a vida dela melhore, mas não sei até que ponto eu possa estar deixando a autonomia da pessoa de lado e colocando as minhas próprias ideias do que seria uma vida ideal, nessa ideia de me colocar no lugar do outro, e imaginar como eu me sentiria se eu fosse a pessoa, que é justamente a raiz da "empatia". Logo na escola somos ensinados a não morder o amiguinho com o argumento "imagina se fosse com você" e com o tempo, levando isso ao extremo, podemos usar isso de forma errônea. Um amigo gosta de bungee jump, se eu imaginasse que fosse comigo, jamais iria e aconselharia ele a não ir. Minha amiga viajou de balão, eu jamais iria. E também nos ajuda a pensar em presentes, não devo dar de presente algo que eu gostaria de ganhar, mas sim o que a pessoa gostaria de ganhar e algo que faça sentido para ela.

Então imaginar que algo aconteça comigo para que eu entenda o sentimento do outro é um pouco limitado em termos de habilidades de compreensão, porque eu não teria a mesma reação do que outra pessoa se algo acontecesse comigo.

Outra face dessa dinâmica acontece quando alguma mulher é assassinada, violentada, abusada sexualmente, ou destratada de alguma forma e a estratégia usada para humanizar a mulher perante aos homens é "imagina se ela fosse sua esposa, filha, mãe". Mas será mesmo necessário que alguém tenha alguma relação com alguém para que seja digna de empatia?

Isso me faz pensar também no seguinte questionamento: preciso viver a experiência que o outro viveu para que algo do outro seja válido, considerado, relevante ou importante? E a resposta mais simples e rápida é obviamente que não, porque o outro é soberano naquilo que é válido, relevante e importante para ele. Mas é claro e evidente que estou falando de coisas que não são urgentes, por exemplo uma pessoa que está em estado de alcoolismo, depressão, etc. Precisam de mais direcionamento, claro. Mas mesmo nesses casos de urgência, acho importante destacar que dar direcionamento não é a mesma coisa que decidir pelo outro a partir do que EU faria se estivesse ali. Uma pessoa em depressão não precisa que eu diga "se eu fosse você eu levantava da cama e ia correr" kkkkkk, o que ela precisa é de alguém que reconheça o peso da situação e ajude a buscar apoio adequado (terapia, rede de apoio, outras atividades, etc), sem que isso signifique que eu precise ter vivido o que ela está vivendo.

Tratar o outro como ele gostaria de ser tratado não é uma fórmula fácil de aplicar, infelizmente kkk, porque muitas vezes há uma exigência intrínseca em abrir mão da minha régua interna e isso (cá entre nós) é muito mais difícil do que simplesmente imaginar como eu me sentiria no lugar de alguém.

Por fim, pensando na ideia de empatia radical, se colocar no lugar do outro não seria imaginar como EU me sentiria, mas estar disposta a abrir espaço pra que o outro me diga como ELE se sente, e mais importante CONFIAR mais nisso do que na minha própria >simulação mental< e >fantasia< da vida dele. Ainda que eu possa estar certa no final (e muitas vezes eu estou mesmo), eu não tenho mãos o suficiente para escrever a história das outras pessoas, já tenho coisas o suficiente para escrever na minha e sempre sempre posso emprestar uma caneta de vez em quando para alguém quando a tinta acabar, mas lembrar que no fim das contas, a história é da outra pessoa.


 
 
 

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