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Slipping through my fingers

  • Foto do escritor: Mar
    Mar
  • 17 de ago. de 2025
  • 5 min de leitura

Esse post vai ser apenas um momento de descompressão acerca do sentimento que tenho com essa música,



Essa música tem um valor sentimental apenas na melodia, pelo menos, era o que eu pensava antigamente, antes de entender a tradução. Eu já sentia que era uma música que rasgava o coração e tinha uma profundidade, mas achava que se limitava à melodia e dizia sobre um amor perdido. Mas quando escutei a música, e pesquisei sobre a tradução, o que era apenas uma melodia sentimental se transformou em uma música que conversa diretamente com partes de mim que ainda não consigo decifrar.

A dor da saudade, a dor de um sentimento ou momento bom que você SABE que vai passar. A saudade antecipada. A saudade do que não vivenciei e nem sei se ao certo vou vivenciar. A minha criança interior. A minha mãe que mora em mim. Uma filha ou filho. Eu filha. Meus irmãos. Essa música me toca em um lugar que ainda não elaborei.

As vezes penso sobre minha família e a sensação de que estou perdendo eles para sempre porque estou perdendo a versão de mim mesma que viveu todas as experiências com eles. Mas ao mesmo tempo, eles também não são os mesmos e continuam me amando apesar de todas as nossas diferenças. O amor ali não é condicionado à quem sou, é um amor que transpassa essas categorias e o amor em si permanece. Não precisam gostar de tudo que faço e se irritam, mas há amor incondicional.

As vezes penso sobre minha mãe, e meu pai também as vezes, mas de forma diferente. Da minha mãe penso que queria que ela vivesse tudo aquilo que ela me proporciona. Meus pais cresceram enquanto eu crescia também.

"As vezes penso sobre minha família e a sensação de que estou perdendo eles para sempre porque estou perdendo a versão de mim mesma que viveu todas as experiências com eles" - digo isso em um sentido de crescimento mesmo. Crescer é deixar as coisas que não servem para trás, e conforme cresço, ressignifico as minhas memórias com o olhar que tenho hoje e então perco parte de mim que viveu aquela memória sem os olhos do meu eu atual. Justifico meu passado pela minha inconsciência, mas ao viver determinadas experiências eu nem mesmo tinha noção, só estava vivendo.

Será que minha mãe sentia que estava me perdendo enquanto eu crescia tanto quanto eu sentia essa distância? Será que meu pai pensa que não me encaixo nos parâmetros que ele defende?

Será que um dia terei um/a filho/a para ter esse mesmo sentimento de que ela está crescendo além daquilo que eu consigo acompanhar?

As vezes me sinto mãe de mim mesma, não porque não tive uma, pelo contrário, mas porque enquanto cresço, percebo ainda partes de mim que não cresceram e que repetem. Repetem as mesmas coisas, buscam as mesmas coisas. Então preciso me observar, como uma criança. Mas não de um jeito negativo, como se fosse uma afronta à mim. Não é. Não é manipulação, é algo que precisa ser visto e com atenção, porque precisa de respeito e amor. As demandas infantis que ainda moram em mim encontram abrigo seguro na pessoa que me tornei, porque entendo que ela merece. Não encontram o que procuram propriamente dito, porque nem tudo que é demandado é de fato necessário, mas encontram liberdade para ser.

E aos poucos lido.

Essa música me faz pensar em tudo que ainda não vivi e na tristeza serena que paira sobre o ambiente mais feliz da sua vida, não faz o momento ser menos, apenas o complexifica, nenhum momento é perfeito e isento de cor. Talvez o que os psicanalistas mais acertaram (lacanianos), seja a falta primordial que a linguagem não consegue alcançar. Talvez seja por isso que a lingua sempre muda, porque mudamos nós também.

Essa música me coloca frente a frente com o temporário e com o ideal, um amor tão grande que dói, um amor que não tem vergonha de ser imperfeito e vulnerável, um amor que deixa passar. Mas ao mesmo tempo me coloca frente a frente com a culpa, de não ter aproveitado certos momentos e de sentir que a vida, passa tão rápido e tão devagar e que pela distância com algumas pessoas não faz sentido nomeá-las como antes eu as nomearia.

Essa música me coloca diretamente dentro de um coração em contato com a culpa de não consegujr fazer tudo que se imagina. E como perdoar a si mesma e ao outros pelas coisas que não conseguimos alcançar? Em algum lugar elas vivem.

Será que eu-filha, tenho tanto desejo de ser amada a ponto de que terem saudade de mim seja bom e necessário e a intensidade da presença me afogue em alegria e desespero.

Essa música me coloca todas as lágrimas que não chorei, e todas as lágrimas que também chorei.

Essa música me deixa só e ao mesmo tempo me conecta com um tipo de sentimento, tão humano e transcendental que é a saudade. Ainda que na letra não digam especificamente isso, é.

Sleep in our eyes, her and me at the breakfast table

Barely awake, I let precious time go by

Then, when she's gone, there's that odd melancholy feeling

And a sense of guilt I can't deny

Odd melancholy feeling, não é uma descrição quase perfeita de saudade?

Mas nesse trecho também tem o poder e esvaziamento involuntário e inevitável do cotidiano, quantos momentos já passaram e deixamos passar. Mas ao mesmo tempo temos tempo infinito agora.

Uma vez meu professor me disse "nascemos e morremos incompletos" e me doeu pensar que é verdade, e isso vai muito além de não ter tempo para construir a si próprio, mas que o próprio processo de construção prevê algumas desconstruções e as vezes nos pegamos em um terreno com diversas construções em espera. Esperando o momento ideal para fazer algo sem perceber que o tempo é implacável, ainda que uns demorem mais que outros, a natureza nos fez finitos e finitos seremos para sempre. A imortalidade não é uma benção. A finitude é. E dentre essas construções em espera, algumas nem fazem mais sentido, pois no processo de construí-las nos formamos e nos percebemos e crescemos sem terminar a casa. É como se ao iniciarmos uma pintura, fôssemos aprendendo mais técnicas e inspirações e deixássemos para terminar depois, mas quando voltamos, não somos as mesmas pessoas que começaram o trabalho e então há de se finalizar ou recomeçar outra coisa.

E como deixar para trás essas coisas que já não fazem tanto sentido para a pessoa que sou hoje?

E como se permitir construir coisas novas? Eu tinha sonhado com uma coisa e agora essaa coisa ou esse conjunto de coisas não passam de um ideal.

Como lidar com as minhas decisões? Como lidar com a culpa de deixar um sonho para trás, enquanto o tempo passa?

Essa música me conecta com o feminino, com o maternal, com o amor que não alcança, com alguém que não posso imaginar, essa música se conecta com a parte inominável que falta em mim, essa música se conecta comigo mesma.

Essa música é um abraço que abraça partes de mim que eu não lembrava ou não pensava. Um abraço porque que não é suficientemente longo e nem apertado, mas ainda sim, um abraço.

Parte de mim se perderá para sempre, e novas partes serão refeitas, feitas , construídas, mas jamais terminarei, pois não há um ápice. A vida humana não pode ser resumida à gráficos numéricos. Então deixo, algumas partes ainda gritando aqui dentro, mas a elaboração de hoje termina por aqui.



 
 
 

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